sábado, agosto 24, 2013

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Tropeço de ternura por ti




Esta frase pintada numa parede da minha "nova" cidade chamou-me a atenção logo nos primeiros dias que cheguei.
Passo por ela 5 dias da semana no caminho para o trabalho.
Está meio escondida numa rua estreita, mal pintada e na maior parte das vezes tapada pelos carros estacionados.

A frase bateu-me instantaneamente e do alto da minha incultura e pouca predileção para poesia não conhecia a sua origem, shame on me.

Descobri então que tinha sido retirada do poema escrito em 1950 Um Adeus Português de Alexandre O'Neill, poeta surrealista nascido no dia 19 de dezembro de 1924 (fazia anos no mesmo dia que eu...) em lisboa e foi escrito numa altura conturbada da vida do poeta.

"Em 1949 Nora Mitrani, surrealista francesa, passa por Lisboa.Conhecem-se, convivem, apaixonam-se.
Depois de regressar a Paris, Nora convida-o a ir ter com ela.                   
Solicitou passaporte ao Governo Civil de Lisboa. Mas alguém da sua família antecipou-se, não queria que fosse atrás da francesa e mete cunha, na PIDE, para que lhe seja negado passaporte. E o passaporte é-lhe negado. Que raio de país era este em que a polícia política até se dá ao luxo de contrariar amores? "
 
Alexandre O'Neill frustrado e cheio de raiva escreveu então esta perola, tão sofrida e cheia de dor que só podia ser mesmo ser portuguesa.
 
 
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais perigoso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Mas tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez do desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão lenta e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
 

12 Comentários:

Super Sónia disse...

o teu último post era muito mais profundo.

Shiver disse...

Depende da boca.....

Super Sónia disse...

you win this time.

Shiver disse...

:D

Almofada disse...

Que bonito...
Quase que me senti romantica por um momento :p

Beijo grande

Shiver disse...

É não é almofada,5 minutos de romantismo e depois passa :P

Rosie disse...

Tu surpreendes-me :p
Mesmo bonito!

Shiver disse...

De vez em quando lá sai algo de jeito Rosie ;)

Ritinha disse...

Adorei o poema. É mesmo lindo :)

Marta disse...

Shame on us!
Eu também não conhecia, mas poesia também não é bem a minha praia :P

Shiver disse...

Tb achei Ritinha :)*

Shiver disse...

Nem a minha mas tenho que estar mais atento Marta :)

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